{"id":452670,"date":"2026-05-10T14:19:56","date_gmt":"2026-05-10T17:19:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ovigilanteonline.com.br\/site\/?p=452670"},"modified":"2026-05-10T14:21:05","modified_gmt":"2026-05-10T17:21:05","slug":"joga-pedra-na-geni-e-no-espelho-por-alexandre-iennaco-de-moraes-ovg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ovigilanteonline.com.br\/site\/2026\/05\/10\/joga-pedra-na-geni-e-no-espelho-por-alexandre-iennaco-de-moraes-ovg\/","title":{"rendered":"Joga pedra na Geni (e no espelho) | Por Alexandre Iennaco de Moraes"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 quarenta e oito anos, num Brasil amorda\u00e7ado pela ditadura militar e pelo AI-5, Chico Buarque subia ao palco com uma \u00f3pera que disfar\u00e7ava, sob a leveza da m\u00fasica popular, uma das mais brutais den\u00fancias sociais j\u00e1 encenadas neste pa\u00eds. Na pe\u00e7a, Geni \u2013 prostituta, travesti, corpo descart\u00e1vel \u2013 \u00e9 primeiro cuspida pela cidade e depois implorada a se sacrificar por ela. Quando salva a todos ao ceder ao comandante do zepelim, a gratid\u00e3o dura o tempo de um compasso: em seguida, o refr\u00e3o recome\u00e7a. Joga pedra na Geni.<\/p>\n\n\n\n<p>A can\u00e7\u00e3o n\u00e3o descrevia apenas uma personagem. Descrevia um mecanismo. Um dispositivo social de funcionamento preciso: o corpo feminino como recurso coletivo, utiliz\u00e1vel, sem consentimento e conden\u00e1vel sem culpa. Chico Buarque, que havia sido censurado em uma de cada tr\u00eas m\u00fasicas que submetia aos militares e precisou criar pseud\u00f4nimos para driblar as listas negras, escolheu envolver essa den\u00fancia nos acordes do cordel nordestino. A forma era popular; o veneno, cir\u00fargico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso ser honesto sobre a ambiguidade da obra: criada como cr\u00edtica \u00e0 hipocrisia da sociedade patriarcal, \u201cGeni e o Zepelim\u201d tamb\u00e9m se prestou, ao longo dos anos, a um uso que seu autor certamente n\u00e3o pretendia. O refr\u00e3o pegou. E pegou de um jeito que, para muitos ouvintes despreparados da \u00e9poca, soou menos como den\u00fancia e mais como permiss\u00e3o. A for\u00e7a po\u00e9tica do verso \u201cela \u00e9 feita pra apanhar\u201d ecoa de modo diferente quando atravessa uma cidade em que mulheres j\u00e1 eram, de fato, tratadas como se feitas para apanhar, sem recursos legais, sem delegacias especializadas, sem nenhum instrumento de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 70, o Brasil n\u00e3o possu\u00eda sequer o conceito legal de viol\u00eancia dom\u00e9stica. A Lei Maria da Penha s\u00f3 viria em 2006. O feminic\u00eddio s\u00f3 seria tipificado como crime em 2015. Naquele contexto, cantar \u201cmaldita Geni\u201d em pra\u00e7a p\u00fablica, mesmo que ironicamente, normalizava um vocabul\u00e1rio de desumaniza\u00e7\u00e3o que o cotidiano j\u00e1 praticava em sil\u00eancio. A arte denuncia, mas n\u00e3o controla o uso que se faz do que denuncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender por que o modelo patriarcal n\u00e3o cede com facilidade, mesmo diante de evid\u00eancias avassaladoras de seu custo humano, a teoria da mola social oferece uma met\u00e1fora \u00fatil. Desenvolvida no campo da psicologia social e dos estudos da mudan\u00e7a cultural, a teoria descreve como sistemas de cren\u00e7a e comportamento funcionam como molas comprimidas: quanto maior for a press\u00e3o externa para a mudan\u00e7a, maior a for\u00e7a reativa de retorno \u00e1 posi\u00e7\u00e3o original. A mola n\u00e3o cede, ela acumula tens\u00e3o e mira o ressalto.<\/p>\n\n\n\n<p>Aplicada \u00e0 masculinidade hegem\u00f4nica, a met\u00e1fora se torna inquietante. Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, o feminismo brasileiro avan\u00e7ou em velocidade not\u00e1vel: conquistas legais, representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, visibilidade na m\u00eddia, transforma\u00e7\u00e3o do vocabul\u00e1rio p\u00fablico. Cada avan\u00e7o, por\u00e9m, gerou uma press\u00e3o correspondente na mola. O homem criado sob o paradigma tradicional \u2013 provedor absoluto, senhor do espa\u00e7o dom\u00e9stico, refer\u00eancia inconteste da fam\u00edlia \u2013 percebe cada ganho feminino como uma perda sua. N\u00e3o porque o seja objetivamente, mas porque sua identidade foi constru\u00edda sobre a diferen\u00e7a vertical: ser homem significava, antes de tudo, n\u00e3o ser subordinado.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed vem o ressalto. E da\u00ed vem, parcialmente, o mercado que hoje se organiza ao redor da \u201cforma\u00e7\u00e3o de homens\u201d. Quando um ator famoso anuncia um curso presencial com t\u00edtulo forte e lema contundente, e recebe imediatamente a rea\u00e7\u00e3o de atrizes famosas, o que se v\u00ea n\u00e3o \u00e9 um debate novo. \u00c9 a mola em a\u00e7\u00e3o: uma sociedade em que n\u00fameros de feminic\u00eddios batem recordes hist\u00f3ricos e, simultaneamente, um segmento significativo de homens procura cursos que validem o que sentem ser uma identidade sitiada.<\/p>\n\n\n\n<p>A teoria da mola n\u00e3o \u00e9 uma justificativa, \u00e9 um diagn\u00f3stico. Compreender a din\u00e2mica n\u00e3o significa aceitar seus efeitos. Significa, ao contr\u00e1rio, reconhecer que a press\u00e3o sem a oferta de uma sa\u00edda alternativa pode produzir viol\u00eancia. A mola, quando n\u00e3o encontra onde se expandir de forma construtiva, quebra.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um equ\u00edvoco que percorre tanto os cursos conservadores de \u201cforma\u00e7\u00e3o de homens\u201d quanto parte do discurso feminista mais radical: a ideia de que a masculinidade e evolu\u00e7\u00e3o s\u00e3o incompat\u00edveis. De um lado, f\u00f3rmulas que confundem maturidade com dureza, lideran\u00e7a com autoritarismo e espiritualidade com domina\u00e7\u00e3o. Do outro, uma narrativa que \u00e0s vezes trata qualquer express\u00e3o de virilidade como amea\u00e7a em potencial. Nenhuma dessas posi\u00e7\u00f5es forma o homem que o Brasil precisa.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem novo n\u00e3o \u00e9 o homem castrado em seus instintos. N\u00e3o \u00e9 o homem que nega sua for\u00e7a, que abandona o desejo de proteger, que renega a competitividade ou a objetividade. O homem novo \u00e9 aquele que aprendeu a distinguir entre a for\u00e7a e a crueldade, entre a prote\u00e7\u00e3o e controle, entre presen\u00e7a e posse. \u00c9 o homem que entende que conviver com a mulher moderna, independente, protagonista, igualmente capaz de ocupar qualquer espa\u00e7o, n\u00e3o representa uma derrota, mas uma expans\u00e3o da pr\u00f3pria humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Geni n\u00e3o precisava de um homem que a defendesse. Precisava de uma cidade que parasse de lhe jogar pedras. H\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental entre os dois gestos. E h\u00e1 um dado que deveria interromper qualquer conversa sobre masculinidade antes de recome\u00e7ar do zero: 148 mulheres foram mortas em 2024 com uma medida protetiva ativa em seu nome. Elas fizeram o que a sociedade pediu que fizessem, denunciaram, registraram, protocolaram. O Estado as reconheceu como em risco. E mesmo assim morreram. Isso n\u00e3o \u00e9 falha individual. \u00c9 falha sist\u00eamica enraizada numa cultura que, mesmo depois de d\u00e9cadas de avan\u00e7o legal, ainda carrega a voz do refr\u00e3o de Geni como fundo musical.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cursos que ensinam \u201co homem a assumir seu papel\u201d sem questionar o que esse papel historicamente custou \u00e0s mulheres n\u00e3o est\u00e3o formando homens melhores. Est\u00e3o, no melhor dos casos, reciclando inseguran\u00e7as com embalagem premium. No pior, est\u00e3o fornecendo vocabul\u00e1rio de legitima\u00e7\u00e3o para aqueles para quem a mola j\u00e1 estava prestes a quebrar. A resposta n\u00e3o est\u00e1 nos dois extremos em disputa. N\u00e3o est\u00e1 no macho que lidera pelo medo, nem no homem que abdica de toda singularidade para ser aceito. A resposta est\u00e1 num espa\u00e7o que o Brasil ainda n\u00e3o mapeou completamente: o da masculinidade consciente.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem consciente sabe que sua for\u00e7a, f\u00edsica, emocional, social, \u00e9 um recurso, n\u00e3o uma hierarquia. Que a independ\u00eancia da mulher com quem divide a vida n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a ao seu valor, mas uma soma ao projeto comum. Que paternidade presente n\u00e3o \u00e9 concess\u00e3o, \u00e9 forma\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter, do filho e do pai. Que quando uma mulher denuncia viol\u00eancia, ela n\u00e3o est\u00e1 atacando \u201cos homens\u201d: est\u00e1 pedindo socorro de um sistema que os homens, em sua maioria, nunca quiseram criar, mas que continuam tendo o poder de desmontar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1978, Chico Buarque precisou disfar\u00e7ar sua den\u00fancia em \u201ccordel\u201d para que ela sobrevivesse \u00e0 censura. Em 2026, a den\u00fancia sobreviveu, mas sobreviveu tamb\u00e9m o que ela denunciava. A cidade continua jogando pedras na Geni. E a pergunta que o pa\u00eds ainda n\u00e3o respondeu de forma definitiva \u00e9: quantos homens est\u00e3o dispostos a parar de arremessar e quantos est\u00e3o dispostos a se colocar na frente?<\/p>\n\n\n\n<p>A mola pode ressaltar, ou pode se expandir em nova forma. Essa \u00e9 uma escolha que os homens brasileiros, individualmente e como grupo, ainda t\u00eam a fazer. E os n\u00fameros cobram resposta urgente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 quarenta e oito anos, num Brasil amorda\u00e7ado pela ditadura militar e pelo AI-5, Chico Buarque subia ao palco com uma \u00f3pera que disfar\u00e7ava, sob a leveza da m\u00fasica popular, uma das mais brutais den\u00fancias sociais j\u00e1 encenadas neste pa\u00eds. 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