Há quarenta e oito anos, num Brasil amordaçado pela ditadura militar e pelo AI-5, Chico Buarque subia ao palco com uma ópera que disfarçava, sob a leveza da música popular, uma das mais brutais denúncias sociais já encenadas neste país. Na peça, Geni – prostituta, travesti, corpo descartável – é primeiro cuspida pela cidade e depois implorada a se sacrificar por ela. Quando salva a todos ao ceder ao comandante do zepelim, a gratidão dura o tempo de um compasso: em seguida, o refrão recomeça. Joga pedra na Geni.
A canção não descrevia apenas uma personagem. Descrevia um mecanismo. Um dispositivo social de funcionamento preciso: o corpo feminino como recurso coletivo, utilizável, sem consentimento e condenável sem culpa. Chico Buarque, que havia sido censurado em uma de cada três músicas que submetia aos militares e precisou criar pseudônimos para driblar as listas negras, escolheu envolver essa denúncia nos acordes do cordel nordestino. A forma era popular; o veneno, cirúrgico.
É preciso ser honesto sobre a ambiguidade da obra: criada como crítica à hipocrisia da sociedade patriarcal, “Geni e o Zepelim” também se prestou, ao longo dos anos, a um uso que seu autor certamente não pretendia. O refrão pegou. E pegou de um jeito que, para muitos ouvintes despreparados da época, soou menos como denúncia e mais como permissão. A força poética do verso “ela é feita pra apanhar” ecoa de modo diferente quando atravessa uma cidade em que mulheres já eram, de fato, tratadas como se feitas para apanhar, sem recursos legais, sem delegacias especializadas, sem nenhum instrumento de proteção.
Na década de 70, o Brasil não possuía sequer o conceito legal de violência doméstica. A Lei Maria da Penha só viria em 2006. O feminicídio só seria tipificado como crime em 2015. Naquele contexto, cantar “maldita Geni” em praça pública, mesmo que ironicamente, normalizava um vocabulário de desumanização que o cotidiano já praticava em silêncio. A arte denuncia, mas não controla o uso que se faz do que denuncia.
Para compreender por que o modelo patriarcal não cede com facilidade, mesmo diante de evidências avassaladoras de seu custo humano, a teoria da mola social oferece uma metáfora útil. Desenvolvida no campo da psicologia social e dos estudos da mudança cultural, a teoria descreve como sistemas de crença e comportamento funcionam como molas comprimidas: quanto maior for a pressão externa para a mudança, maior a força reativa de retorno á posição original. A mola não cede, ela acumula tensão e mira o ressalto.
Aplicada à masculinidade hegemônica, a metáfora se torna inquietante. Nas últimas três décadas, o feminismo brasileiro avançou em velocidade notável: conquistas legais, representação política, visibilidade na mídia, transformação do vocabulário público. Cada avanço, porém, gerou uma pressão correspondente na mola. O homem criado sob o paradigma tradicional – provedor absoluto, senhor do espaço doméstico, referência inconteste da família – percebe cada ganho feminino como uma perda sua. Não porque o seja objetivamente, mas porque sua identidade foi construída sobre a diferença vertical: ser homem significava, antes de tudo, não ser subordinado.
Daí vem o ressalto. E daí vem, parcialmente, o mercado que hoje se organiza ao redor da “formação de homens”. Quando um ator famoso anuncia um curso presencial com título forte e lema contundente, e recebe imediatamente a reação de atrizes famosas, o que se vê não é um debate novo. É a mola em ação: uma sociedade em que números de feminicídios batem recordes históricos e, simultaneamente, um segmento significativo de homens procura cursos que validem o que sentem ser uma identidade sitiada.
A teoria da mola não é uma justificativa, é um diagnóstico. Compreender a dinâmica não significa aceitar seus efeitos. Significa, ao contrário, reconhecer que a pressão sem a oferta de uma saída alternativa pode produzir violência. A mola, quando não encontra onde se expandir de forma construtiva, quebra.
Há um equívoco que percorre tanto os cursos conservadores de “formação de homens” quanto parte do discurso feminista mais radical: a ideia de que a masculinidade e evolução são incompatíveis. De um lado, fórmulas que confundem maturidade com dureza, liderança com autoritarismo e espiritualidade com dominação. Do outro, uma narrativa que às vezes trata qualquer expressão de virilidade como ameaça em potencial. Nenhuma dessas posições forma o homem que o Brasil precisa.
O homem novo não é o homem castrado em seus instintos. Não é o homem que nega sua força, que abandona o desejo de proteger, que renega a competitividade ou a objetividade. O homem novo é aquele que aprendeu a distinguir entre a força e a crueldade, entre a proteção e controle, entre presença e posse. É o homem que entende que conviver com a mulher moderna, independente, protagonista, igualmente capaz de ocupar qualquer espaço, não representa uma derrota, mas uma expansão da própria humanidade.
Geni não precisava de um homem que a defendesse. Precisava de uma cidade que parasse de lhe jogar pedras. Há uma diferença fundamental entre os dois gestos. E há um dado que deveria interromper qualquer conversa sobre masculinidade antes de recomeçar do zero: 148 mulheres foram mortas em 2024 com uma medida protetiva ativa em seu nome. Elas fizeram o que a sociedade pediu que fizessem, denunciaram, registraram, protocolaram. O Estado as reconheceu como em risco. E mesmo assim morreram. Isso não é falha individual. É falha sistêmica enraizada numa cultura que, mesmo depois de décadas de avanço legal, ainda carrega a voz do refrão de Geni como fundo musical.
Os cursos que ensinam “o homem a assumir seu papel” sem questionar o que esse papel historicamente custou às mulheres não estão formando homens melhores. Estão, no melhor dos casos, reciclando inseguranças com embalagem premium. No pior, estão fornecendo vocabulário de legitimação para aqueles para quem a mola já estava prestes a quebrar. A resposta não está nos dois extremos em disputa. Não está no macho que lidera pelo medo, nem no homem que abdica de toda singularidade para ser aceito. A resposta está num espaço que o Brasil ainda não mapeou completamente: o da masculinidade consciente.
O homem consciente sabe que sua força, física, emocional, social, é um recurso, não uma hierarquia. Que a independência da mulher com quem divide a vida não é uma ameaça ao seu valor, mas uma soma ao projeto comum. Que paternidade presente não é concessão, é formação de caráter, do filho e do pai. Que quando uma mulher denuncia violência, ela não está atacando “os homens”: está pedindo socorro de um sistema que os homens, em sua maioria, nunca quiseram criar, mas que continuam tendo o poder de desmontar.
Em 1978, Chico Buarque precisou disfarçar sua denúncia em “cordel” para que ela sobrevivesse à censura. Em 2026, a denúncia sobreviveu, mas sobreviveu também o que ela denunciava. A cidade continua jogando pedras na Geni. E a pergunta que o país ainda não respondeu de forma definitiva é: quantos homens estão dispostos a parar de arremessar e quantos estão dispostos a se colocar na frente?
A mola pode ressaltar, ou pode se expandir em nova forma. Essa é uma escolha que os homens brasileiros, individualmente e como grupo, ainda têm a fazer. E os números cobram resposta urgente.







