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A música depois do músico | Por Alexandre Iennaco de Moraes

A música depois do músico | Por Alexandre Iennaco de Moraes

Durante muito tempo, acreditamos que certas transformações tecnológicas na música eram meramente técnicas, quase invisíveis, restritas aos bastidores dos estúdios e aos manuais de equipamentos. No entanto, algumas dessas mudanças alteraram profundamente a forma como ouvimos, criamos e nos relacionamos com a música, mesmo quando fingimos não perceber. A atual discussão sobre inteligência artificial na composição musical não nasce do nada. Ela ecoa um debate mais antigo, iniciado quando a percussão deixou de ser apenas pele, madeira e suor para tornar-se pulso eletrônico, código e memória digital.

As primeiras caixas de ritmo e sistemas de percussão eletrônica surgiram entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970, em um mundo que já flertava com a automação em quase todas as áreas. No início, eram vistas como curiosidades futuristas, ferramentas de apoio para ensaios ou experimentações sonoras. Mas, ao longo das décadas seguintes, tornaram-se protagonistas. Com a chegada dos samplers nos anos 1980, qualquer som passou a ser capturado, repetido, reorganizado. Um estalo de dedo podia virar batida. Um erro podia virar assinatura estética. A música descobria que não precisava mais nascer exclusivamente das mãos treinadas de um instrumentista.

Esse avanço técnico trouxe liberdade criativa, mas também consequências silenciosas. Em muitos palcos, especialmente a partir dos anos 1990, bateristas e percussionistas começaram a desaparecer das apresentações ao vivo. Não por incompetência, mas por conveniência. A batida programada não se cansa, não erra, não adoece, não pede cachê maior nem espaço no palco. Ela obedece. Em nome da precisão e do controle, a presença humana foi sendo substituída por sequências pré-gravadas, muitas vezes invisíveis ao público. O curioso é que esse processo raramente gerou comoção coletiva. O meio musical, em grande parte, adaptou-se. O público, quase sempre, não percebeu ou não se importou. O som seguia alto, a pista cheia, a experiência aparentemente intacta.

Talvez porque o ouvinte comum consuma música como quem consome uma paisagem: sente o impacto, mas raramente pergunta como ela foi construída. Poucos se questionam se aquela batida pulsante vem de um músico suando atrás do palco ou de um arquivo digital rodando em loop. A música, nesse sentido, tornou-se cada vez mais um produto final, desconectado do processo humano que a gera. A técnica virou magia invisível, e o esforço, um detalhe dispensável.

Artistas consagrados, formados em outra relação com o tempo, o erro e o improviso, frequentemente manifestaram desconforto diante desse cenário. Paul McCartney, por exemplo, já reconheceu o poder libertador da tecnologia, mas também alertou para o risco de se perder aquilo que torna a música profundamente humana: a imperfeição, o acaso, a respiração entre uma nota e outra. Outros músicos veteranos compartilham a mesma inquietação, não por saudosismo puro, mas por entenderem que a música sempre foi mais do que som organizado; ela é gesto, encontro, presença.

É nesse terreno já preparado que a inteligência artificial surge, não como ruptura absoluta, mas como continuidade acelerada. Se antes as máquinas reproduziam e organizavam sons, agora elas podem sugerir melodias, harmonias, letras e estruturas inteiras. Isso provoca desconforto e fascínio em igual medida. Ao mesmo tempo em que ameaça profissões e desafia conceitos tradicionais de autoria, a IA abre uma possibilidade inédita: pessoas sem domínio técnico de instrumentos, mas com ideias musicais, sensibilidade poética ou musicalidade intuitiva, passam a ter meios de expressar sentimentos que antes ficavam presos ao silêncio. Vozes que nunca chegariam ao estúdio agora encontram passagem.

Essa abertura, porém, não resolve o dilema central. Ela apenas o desloca. Se qualquer pessoa pode criar música com auxílio de sistemas inteligentes, o que passa a diferenciar uma obra da outra não é mais apenas a habilidade técnica, mas a intenção, a visão, o que se deseja comunicar. A técnica deixa de ser obstáculo, mas também deixa de ser filtro. O resultado pode ser tanto uma explosão criativa quanto uma saturação de sons vazios de sentido.

Talvez estejamos diante de uma nova janela de entretenimento, onde a música não será apenas algo que se escuta, mas algo que se constrói em parceria entre humanos e máquinas. Um espaço onde o papel do artista não desaparece, mas se transforma: menos executor, mais curador de ideias, mais narrador de emoções. Nesse futuro possível, a questão não será se a tecnologia é boa ou má, mas se ainda reconhecemos, no meio do ruído digital, o valor da intenção humana que dá origem ao som. Afinal, a música sempre foi, antes de tudo, uma tentativa de traduzir aquilo que não cabe nas palavras.

*Alexandre Iennaco de Moraes é Propagandista Vendedor da Indústria Farmacêutica. Gerente Distrital na Empresa Cifarma Científica Farmacêutica. Graduando em Letras/Espanhol – UNIP SP (EAD).

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