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Dia Nacional do Atleta Paralímpico destaca histórias e desafios do paradesporto em Juiz de Fora

Dia Nacional do Atleta Paralímpico destaca histórias e desafios do paradesporto em Juiz de Fora
Fotos: Divulgação

Data celebrada em 22 de setembro coloca em evidência trajetórias esportivas, formação de atletas, acessibilidade e desafios estruturais

Por Antônio Marcos Costa

O dia 22 de setembro marca o Dia Nacional do Atleta Paralímpico, instituído pela Lei nº 12.622, de 8 de maio de 2012. A legislação estabeleceu a data no calendário oficial de eventos brasileiros. Embora a lei utilize a grafia “paraolímpico”, a terminologia atualmente empregada pelo movimento paralímpico brasileiro é “paralímpico”.

A ocasião permite observar o percurso de atletas que passaram pela iniciação esportiva, chegaram às competições nacionais e, em alguns casos, alcançaram o cenário internacional. Também coloca em evidência uma questão que antecede qualquer resultado: as condições necessárias para que uma pessoa com deficiência tenha acesso ao esporte e consiga permanecer nele.

Juiz de Fora no cenário paralímpico

De atletas que chegaram ao cenário internacional a jovens que constroem seu percurso competitivo, Juiz de Fora e a região da zona da mata reúnem diferentes experiências no paradesporto. Entre elas estão os percursos de Gabriel Araújo, Alexandre Ank, Marcelina do Nascimento e João Paulo da Silva, atletas que representam momentos distintos de um processo que envolve descoberta de uma prática esportiva, formação, treinamento, competição e continuidade.

Essas experiências também mostram que não existe um único caminho para chegar ao esporte competitivo. Em alguns casos, a oportunidade surge na escola; em outros, por meio de projetos, clubes, universidades ou do contato direto com determinada modalidade.

Gabriel Araújo: da iniciação ao cenário internacional

Gabriel Geraldo dos Santos Araújo, o Gabrielzinho, nasceu em Santa Luzia, Minas Gerais, e possui focomelia, condição congênita que afetou a formação dos membros. O contato com a natação ocorreu ainda no ambiente escolar, por meio de um professor de Educação Física e da participação no JEMG (Jogos Escolares de Minas Gerais).

Posteriormente, Juiz de Fora passou a fazer parte de sua formação esportiva. O atleta treinou na cidade com o técnico Fábio Antunes e utilizou a estrutura da Faculdade de Educação Física e Desportos da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

A carreira ganhou projeção internacional. Nos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020, Gabriel conquistou duas medalhas de ouro e uma de prata. Em Paris 2024, foram três medalhas de ouro. O atleta também acumulou resultados expressivos em campeonatos mundiais e nos Jogos Parapan-Americanos.

O percurso de Gabriel demonstra como a combinação entre iniciação esportiva, profissionais especializados e estrutura de treinamento pode contribuir para o desenvolvimento de atletas de alto rendimento.

Alexandre Ank e a descoberta de uma modalidade

Outro nome ligado ao paradesporto na região é Alexandre Macieira Ank. Natural de Bicas, ele passou a utilizar cadeira de rodas após um acidente automobilístico ocorrido em 1996.

Sua carreira esportiva foi construída a partir do contato com diferentes práticas até encontrar o tênis de mesa. Em 2003, durante uma competição, teve contato com a modalidade e recebeu a oportunidade de participar. A experiência resultou em bons desempenhos e acabou direcionando sua carreira esportiva.

Ank posteriormente alcançou resultados internacionais, incluindo medalhas de ouro nos Jogos Parapan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007, e de Toronto, em 2015, além do bronze individual em Lima, em 2019.

Seu percurso também evidencia a importância de ampliar o acesso de pessoas com deficiência a diferentes esportes. Em debate realizado em Juiz de Fora, o atleta destacou a necessidade de oportunidades para experimentar atividades esportivas e encontrar uma prática compatível com suas características e interesses.

Marcelina do Nascimento e sua trajetória no parajiu-jítsu

A experiência de Marcelina do Nascimento apresenta outra dimensão do esporte paralímpico. A atleta juiz-forana, que possui paralisia cerebral, encontrou no parajiu-jítsu uma prática esportiva na qual desenvolveu sua atuação competitiva e trabalhou aspectos relacionados à mobilidade e à autonomia.

Em 2022, Marcelina conquistou o título do Pan-Americano de Parajiu-jítsu e ocupava a primeira posição do ranking sul-americano em sua classe funcional. Naquele período, sua rotina incluía treinamento de jiu-jítsu, adaptação de movimentos, musculação, exercícios voltados à coordenação e atividades de fortalecimento.

A atleta também relatava a necessidade de buscar apoiadores para viabilizar sua participação em outras competições. A situação evidencia uma realidade presente em diferentes modalidades: a preparação e a participação competitiva envolvem despesas com treinamento, equipamentos, deslocamento, inscrições e viagens.

João Paulo e a formação pelo goalball

Entre os atletas mais jovens ligados ao esporte paralímpico em Juiz de Fora está João Paulo Ferreira da Silva, atleta de 14 anos nascido em Leopoldina e radicado em Juiz de Fora. Formado no ambiente do Projeto Goalball Zona da Mata, é pessoa com deficiência visual.

Sua formação no goalball está associada à participação em competições escolares e regionais, conciliando treinamento e estudos. Segundo informações divulgadas pelo projeto, o atleta acumula três títulos do JENG Paralímpico, além da medalha de bronze nas Paralimpíadas Escolares de 2024 e do vice-campeonato em 2025.

Em 2026, João Paulo participará das Paralimpíadas Escolares representando a Seleção Mineira de Goalball. Embora sua formação esportiva esteja vinculada ao Projeto Goalball Zona da Mata, sua representação na competição será pela seleção estadual.

O percurso do atleta também demonstra a continuidade de um trabalho de formação. A chegada a uma seleção estadual é precedida por treinamento, participação em competições e conciliação entre esporte e educação.

Centro de Referência Paralímpico amplia possibilidades de formação

Outro componente dessa estrutura esportiva é o Centro de Referência Paralímpico da Universidade Federal de Juiz de Fora. Implantado a partir de uma parceria entre a UFJF e o Comitê Paralímpico Brasileiro, o espaço atua na formação esportiva, desde a iniciação até níveis de maior desempenho, além de contribuir para a capacitação de profissionais e o desenvolvimento de pesquisas.

Em 2023, segundo informações divulgadas pela UFJF, aproximadamente 40 atletas da natação treinavam no Centro de Referência, sendo que 15 apresentavam resultados em competições estaduais, nacionais ou internacionais. Gabriel Araújo estava entre os atletas vinculados às atividades desenvolvidas no espaço.

Os números são referentes àquele período e ajudam a dimensionar o papel desempenhado pelo centro na formação esportiva. A existência de uma estrutura especializada, porém, integra uma rede mais ampla, que envolve profissionais, famílias, escolas, universidades, associações e projetos.

O papel do goalball na formação esportiva

Dentro dessa rede, o Projeto Goalball Zona da Mata desenvolve atividades voltadas à formação e à preparação de atletas da modalidade, além de promover treinamentos e participação em competições.

O trabalho conta com a colaboração de parceiros como o Instituto Jesus, a Associação de Árbitros Independentes de Juiz de Fora e Região e a APAE de Leopoldina.

O goalball ocupa um espaço específico no paradesporto por ser uma modalidade destinada a atletas com deficiência visual. Sua prática exige preparação técnica, orientação espacial, condicionamento físico, concentração e domínio das regras, além de estrutura adequada para treinamento e competição.

Os desafios que existem antes da competição

No esporte paralímpico, chegar à competição é resultado de uma cadeia de condições que começa muito antes do dia da disputa.

A formação exige profissionais qualificados, espaços adequados, equipamentos específicos, preparação física e técnica, acompanhamento multidisciplinar, transporte, alimentação, hospedagem, inscrições, deslocamentos e condições de acessibilidade.

A experiência de Marcelina, por exemplo, mostra como a busca por recursos pode fazer parte da realidade de atletas que precisam viabilizar diferentes etapas de sua preparação e participação competitiva.

Por isso, discutir esporte paralímpico também significa discutir continuidade. Não basta criar uma oportunidade de iniciação; é necessário construir condições para que o atleta possa permanecer, evoluir e disputar competições de diferentes níveis.

Uma rede para formar atletas e cidadãos

As histórias de Gabriel Araújo, Alexandre Ank, Marcelina do Nascimento e João Paulo da Silva mostram diferentes momentos do desenvolvimento esportivo. Há quem tenha alcançado grandes competições internacionais, quem tenha encontrado uma modalidade depois de experimentar outras práticas e quem ainda esteja construindo sua carreira competitiva.

Em comum, está a necessidade de oportunidade, formação e continuidade.

O Dia Nacional do Atleta Paralímpico, celebrado em 22 de setembro, permite reconhecer resultados, mas também olhar para o processo que existe antes deles. A formação de um atleta depende de uma rede que envolve profissionais, famílias, escolas, universidades, projetos, associações e parceiros.

A medalha é apenas a parte visível de um processo que começa muito antes do pódio. Por trás de cada resultado existe uma trajetória construída com formação, treinamento, oportunidades e condições para a permanência do atleta no esporte.

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