Sinais do câncer de estômago costumam surgir antes, mas muita gente ignora
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Sinais do câncer de estômago costumam surgir antes, mas muita gente ignora

Sinais do câncer de estômago costumam surgir antes, mas muita gente ignora
FreePik/Reprodução

Doença silenciosa nas fases iniciais, o tumor gástrico é o quarto mais frequente entre homens no Brasil e tem taxa de sobrevida inferior a 20% quando descoberto em estágio avançado

Um desconforto que vai e volta. Uma sensação de estômago cheio que aparece mesmo depois de uma refeição pequena. Perda de peso sem motivo aparente. São sinais que muitos brasileiros tratam com antiácidos, chás caseiros ou simplesmente ignoram por meses, às vezes por anos. Quando o diagnóstico finalmente chega, o tumor gástrico já avançou.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) publicou, em fevereiro de 2026, a Estimativa 2026-2028, que projeta 781 mil novos casos de câncer por ano no país. Entre os homens, o câncer de estômago aparece como o quarto mais incidente, atrás apenas dos tumores de próstata, cólon e reto, e pulmão.

Na estimativa anterior, referente ao triênio 2023-2025, o INCA calculava 21.480 novos casos anuais de tumor gástrico, sendo 13.340 em homens e 8.140 em mulheres. A projeção para os próximos anos tende a ser ainda maior.

O problema é que, diferente de outros tumores que já contam com campanhas consolidadas de rastreamento, o câncer de estômago não tem um programa nacional de detecção precoce. E os sintomas iniciais se confundem com queixas digestivas comuns, o que retarda a procura por investigação mais detalhada.

Um problema que cresce em silêncio

Como ressalta um especialista em tratamento de câncer do estômago Goiânia, o comportamento clínico do tumor gástrico é um dos fatores que mais dificulta o diagnóstico em tempo adequado. Nas fases iniciais, a doença costuma ser assintomática ou provocar queixas leves e inespecíficas. A pessoa sente o que parece ser uma gastrite, um refluxo ou uma indigestão recorrente. Toma medicamento por conta própria, melhora temporariamente e adia a consulta.

Dados do A.C.Camargo Cancer Center, centro de referência em oncologia, mostram que 66,4% dos tumores de estômago são descobertos em estágios avançados (III e IV). Quando o diagnóstico é feito nos estágios iniciais (0 a II), a taxa de sobrevida em cinco anos chega a 90%. No estágio IV, essa taxa cai para 14%.

Um estudo publicado na Revista Médica de Minas Gerais, que analisou 456 prontuários de pacientes com câncer gástrico tratados entre 2000 e 2017 em Barbacena, na região Centro-Sul do estado, confirmou o padrão: a maioria dos diagnósticos foi feita em fases avançadas da doença, independentemente do perfil do paciente.

Essa realidade não é exclusividade de Minas Gerais. No Japão, onde há programas de rastreamento endoscópico em larga escala, mais de 50% dos casos de câncer gástrico são detectados em fase precoce. No Brasil e nos demais países ocidentais, esse índice varia entre 10% e 15%, segundo revisão publicada na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.

Quais sinais o corpo dá

O INCA lista os sintomas que podem indicar tanto doenças benignas do estômago (como gastrite e úlcera) quanto um tumor gástrico. A diferença está na persistência e na combinação dos sinais. Os mais comuns incluem:

Perda de peso sem explicação, redução do apetite, cansaço constante, sensação de estômago cheio mesmo após refeições pequenas, náuseas frequentes, vômitos (eventualmente com sangue), dor ou desconforto abdominal que não cede com tratamentos habituais e fezes escurecidas.

Nenhum desses sintomas isolados confirma um diagnóstico de câncer. Porém, a combinação de dois ou mais desses sinais, mantidos por semanas, exige investigação médica. A Endoscopia Digestiva Alta (EDA) é o exame mais indicado para avaliar a mucosa do estômago e identificar alterações suspeitas. Quando há lesão, a biópsia define se o caso é benigno ou maligno.

O que preocupa os especialistas é a demora entre o aparecimento dos primeiros sintomas e a realização do exame. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, o percurso entre a primeira queixa do paciente e o início do tratamento pode levar de seis meses a um ano no sistema público de saúde. Nesse intervalo, o tumor avança.

A bactéria que ninguém vê e o risco que ela carrega

Uma parte relevante da história do câncer de estômago no Brasil passa pela infecção por Helicobacter pylori. A Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica a bactéria como carcinógeno do tipo 1, ou seja, com relação comprovada com o desenvolvimento de câncer em humanos. No Brasil, estima-se que cerca de 70% da população esteja infectada, com índices que chegam a 90% em comunidades com condições sanitárias precárias.

A infecção por H. pylori não provoca câncer em todos os casos. Cerca de 5% das pessoas infectadas desenvolvem um processo inflamatório crônico que pode progredir para gastrite atrófica, metaplasia intestinal e, eventualmente, adenocarcinoma gástrico. Segundo o Instituto Oncoguia, a bactéria está envolvida em mais de 60% dos casos de câncer de estômago no país.

Na Zona da Mata mineira, onde a população tem perfil misto entre urbano e rural e onde o acesso a saneamento básico completo ainda não é universal em todos os municípios, a atenção a esse fator de risco ganha peso adicional. A bactéria se transmite por via oral-oral e fecal-oral, ou seja, água e alimentos contaminados são vias de infecção.

Como pontua o Dr. Thiago Tredicci, especialista em cirurgia digestiva sediado em Goiânia, o diagnóstico da H. pylori pode ser feito por endoscopia com biópsia, teste respiratório com carbono marcado ou pesquisa de antígeno nas fezes. No entanto, no Brasil, apenas pacientes com sintomas digestivos ou com histórico familiar de câncer gástrico em parente de primeiro grau são encaminhados para testagem.

Programas de rastreamento populacional, como os do Japão e da Coreia do Sul, não existem aqui porque a incidência de câncer gástrico no país é considerada moderada.

Fatores de risco além da bactéria

A infecção por H. pylori é o principal fator de risco, mas não é o único. A alimentação tem papel relevante. O consumo frequente de alimentos ultraprocessados, embutidos (como salsichas, salames e linguiças), carnes defumadas, charque e alimentos conservados em excesso de sal está associado ao aumento do risco.

Do outro lado, o consumo regular de frutas, verduras e legumes tem efeito protetor. Fibras e antioxidantes presentes nesses alimentos ajudam a manter a mucosa gástrica menos exposta a agressores crônicos.

O tabagismo também é um fator documentado. Revisões sistemáticas apontam que fumantes têm risco 53% maior de desenvolver câncer gástrico em relação a não fumantes. Em homens, esse risco é ainda mais elevado. Além de contribuir para a incidência, o cigarro piora o prognóstico: pacientes tabagistas têm maior taxa de recorrência e mortalidade pela doença.

O consumo de álcool é outro agravante. Embora sua relação com o câncer de estômago seja menos direta do que com tumores de boca, esôfago e fígado, o uso combinado de álcool e cigarro potencializa os danos à mucosa gástrica.

A idade é um fator que não pode ser ignorado. Cerca de 65% dos pacientes diagnosticados têm mais de 50 anos, com pico entre os 60 e 70. Histórico familiar de câncer gástrico em parente de primeiro grau também eleva o risco e justifica acompanhamento mais frequente.

O peso do diagnóstico tardio em cidades do interior

Em municípios menores, a distância até centros especializados de oncologia é um agravante concreto. Um morador de Leopoldina, Cataguases ou Muriaé que apresenta sintomas persistentes depende, em muitos casos, de encaminhamento via regulação do SUS para realizar uma endoscopia e, se necessário, consultar um oncologista ou gastrocirurgião em centros maiores como Juiz de Fora ou Belo Horizonte.

O tempo entre a suspeita e a confirmação diagnóstica se alonga. E, como a doença não espera, cada mês de atraso pode significar a diferença entre um tratamento curativo e um tratamento paliativo.

Dados da literatura médica brasileira mostram que a taxa de sobrevida global em cinco anos para câncer gástrico no país fica abaixo de 20%. Esse número reflete, em grande parte, o predomínio de diagnósticos em estágio avançado.

Em países com programas de rastreamento ativo, como o Japão, a sobrevida ultrapassa 60% porque uma parcela muito maior dos casos é detectada quando o tumor ainda está restrito à mucosa ou à submucosa.

Na prática, isso significa que a diferença entre viver e morrer por câncer de estômago está, em muitos casos, na velocidade com que o paciente chega ao diagnóstico correto.

O que pode ser feito agora

Não existe vacina contra o câncer de estômago. Não há, no Brasil, campanha de rastreamento equivalente ao Outubro Rosa (mama) ou ao Novembro Azul (próstata). A prevenção depende de atitudes individuais e de atenção médica no momento certo.

Quem tem mais de 50 anos, fuma, consome álcool regularmente, tem dieta rica em embutidos e pobre em vegetais, ou tem caso de câncer gástrico na família deveria conversar com um médico especialista em saúde digestiva sobre a necessidade de investigação. A endoscopia é um exame seguro, relativamente rápido e capaz de identificar lesões antes que se tornem tumores agressivos.

Para quem já foi diagnosticado com infecção por H. pylori, o tratamento com antibióticos pode eliminar a bactéria e reduzir o risco de complicações futuras. A erradicação da infecção interrompe o processo inflamatório crônico que, ao longo de décadas, pode evoluir para câncer.

E para quem sente os sintomas descritos neste texto há semanas ou meses, o recado é direto: não normalizar o desconforto. Gastrite crônica, refluxo persistente e perda de peso inexplicável não são problemas para resolver sozinho, com automedicação. São sinais que justificam uma consulta e, se o médico considerar necessário, uma endoscopia.

O câncer de estômago é agressivo, mas não é invisível. O corpo dá sinais. O que falta, na maioria das vezes, é alguém prestar atenção neles.

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