Há dias em que uma imagem rasga o coração da gente. Não como uma notícia distante, dessas que passam apressadas pela tela do celular, mas como uma ferida que se abre dentro da consciência.
Foi assim quando vi a fotografia de um menino iraniano indo para a escola. Um menino pequeno, mochila nas costas, rosto ainda com a inocência de quem deveria estar pensando apenas em brincar. Mas antes de sair ele se despede da mãe como se fosse um último adeus. Não um “até logo”. Um adeus.

Naquele instante pensei: e se fosse um filho meu?
E a pergunta não ficou no plano da imaginação. Ela se transformou em algo mais profundo, quase um golpe silencioso na alma. Porque quando vemos uma criança assim, entendemos uma verdade que a política, as bandeiras e os discursos tentam esconder: somos todos irmãos.
Enquanto isso, o mundo continua assistindo à barbárie. Os conflitos que envolvem os Estados Unidos e o Irã, os ataques de Israel no Líbano, as mortes que se acumulam no Oriente Médio — tudo isso vai sendo tratado como estratégia geopolítica, como disputa de poder, como cálculo militar.
Mas quem paga essa conta não são os estrategistas.
São as crianças.
São as mães.
São os idosos.
São os jovens que jamais voltarão para casa.
Bilhões de dólares são gastos em armas.
Bilhões para destruir.
E, no entanto, cada vida perdida não tem preço.
Enquanto isso, nos noticiários e nas redes sociais, discute-se o preço do petróleo, os mercados internacionais, ou mesmo debates políticos que ocupam manchetes — como a nomeação da deputada Erika Hilton em discussões públicas recentes.
Tudo parece urgente. Tudo parece importante.
Mas em algum lugar do mundo uma criança está dizendo adeus à própria mãe antes de sair para a escola.
E isso deveria nos envergonhar como humanidade.
Há muitos anos, o cantor argentino León Gieco escreveu uma canção que atravessou fronteiras e se tornou quase uma oração civil. A música Solo le pido a Dios pede algo simples e ao mesmo tempo imenso: que a dor do outro nunca nos seja indiferente.
Talvez seja esse o maior risco do nosso tempo: a indiferença.
Eu, pelo menos, agradeço a Deus por ainda sentir dor diante da dor palestina, iraniana ou de qualquer povo esmagado pelo poder e pela violência. Agradeço por não conseguir assistir a essas imagens com frieza.
Mais assustador do que a guerra é ver pessoas que se dizem cristãs comemorando massacres. Celebrando bombas como se fossem vitórias morais.
Essas pessoas, no fundo, merecem mais piedade do que indignação. Porque estão muito distantes daquele ensinamento radical de Jesus Cristo que nos mandou amar até os nossos inimigos.
Amar — não destruir.
Amar — não dominar.
Amar — não humilhar.
O próprio Papa Francisco já repetiu inúmeras vezes que a guerra é sempre uma derrota da humanidade. Não importa quem a vença militarmente: quando a guerra começa, todos já perderam algo essencial.
Meu pai, já frágil em um leito de hospital, certa vez me disse algo que nunca esqueci. Mesmo doente, ele demonstrava uma preocupação profunda com o avanço do autoritarismo e com a lógica imperial das grandes potências. Falava com inquietação sobre líderes como Donald Trump e sobre como discursos de força podem empurrar o mundo para caminhos perigosos.
Ele não falava como analista político.
Falava como um homem que tinha compaixão.
Talvez seja isso que mais esteja faltando no mundo: compaixão.
Porque hoje a guerra parece distante para muitos de nós. Acontece em mapas que vemos na televisão, em países cujo nome às vezes pronunciamos com dificuldade.
Mas a história ensina que a guerra nunca fica distante por muito tempo. Interesses econômicos, disputas por petróleo, minerais raros, rotas estratégicas — tudo isso tem o poder de aproximar conflitos que pareciam longínquos.
A violência sempre encontra novos caminhos.
Por isso é inaceitável assistir em silêncio às mortes e aos massacres que se repetem diante dos nossos olhos.
Volto então àquele menino.
Ele não sabe nada de geopolítica.
Não entende nada de disputas militares.
Não conhece as estratégias das potências.
Ele só sabe que precisa abraçar a mãe antes de sair.
Talvez porque, em algum lugar dentro dele, exista o medo de que aquele abraço seja o último.
E se essa imagem não for capaz de nos despertar, então talvez a humanidade esteja perdendo algo muito mais grave do que territórios ou disputas políticas.
Talvez estejamos perdendo a nossa própria alma.
Como diz a velha canção argentina:
que a guerra não nos seja indiferente.
Porque quando a dor do outro deixa de nos tocar, algo dentro de nós também começa a morrer.













