
No dia 21 de fevereiro de 2026, eu acordei com medo.
Um medo diferente. Um vazio que não fazia barulho, mas doía. E, como na canção “Poema”, de Cazuza, eu me senti tateando no escuro, procurando um carinho, um abraço, alguma presença que me dissesse que estava tudo bem. Mas, dessa vez, o abraço já não vinha de fora.
Reinaldo Ferreira Barbosa partira naquele dia. E, de repente, a gente percebe que perdeu — ou está perdendo — “alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho”. Algo que sempre esteve ali. Algo que parecia eterno.
Meu pai nasceu para a luta. Perdeu o pai aos cinco anos de idade. Ainda criança, conheceu a ausência e a dureza da vida. Ao lado de minha avó Maria do Carmo e de suas irmãs, enfrentou dificuldades que moldaram seu caráter. A infância lhe ensinou cedo demais o peso da responsabilidade.
Aos onze anos, saiu de casa. Um menino pequeno, mas já com coragem de homem. Foi viver em Raposo, no estado do Rio de Janeiro, trabalhando no Hotel e Estância de Água Mineral. Contava histórias daquela época com uma mistura de orgulho e saudade — da fazenda entre Raposo e Natividade, das madrugadas frias, do trabalho pesado, das descobertas. O passado lhe trazia lembranças do tempo em que era criança — quando o medo ainda era motivo de choro e desculpa para um abraço.
Talvez por isso ele tenha se tornado um homem que abraçava tanto.
Seu grande amor sempre foi o Batatal, zona rural de Eugenópolis. Embora registrado em Patrocínio do Muriaé, era ali que sua alma morava. Terra simples, povo sofrido e lutador. Ele falava daquele chão como quem fala de um pedaço do céu. Era a memória viva de quem nunca esqueceu de onde veio.
Em 1960, veio para Leopoldina — trazido por Dr. Ormeu, que lhe estendeu a mão e abriu caminhos. E aqui ele construiu sua história. Trabalhou no Centenário, no Imperial, Oxalá, Puris, Novo Milênio. Começou como cozinheiro e churrasqueiro, terminou como frentista. Em cada função, havia honra. Em cada jornada, dignidade.
Quando fui estudar em Juiz de Fora, ele acordava às quatro da manhã para fazer pastel. Um pastel que tinha algo diferente — tinha amor. Às sete já estava entregando no comércio. Certa vez, entristeceu-se porque alguém fingiu não o reconhecer. Eu lhe disse que tinha orgulho dele. E era pouco perto do que eu sentia.
Mesmo depois de eu me formar, ele continuou. E eu amava acompanhá-lo, dirigir para ele, comprar farinha, dividir o silêncio das madrugadas e o cheiro da massa fritando. Hoje percebo: aquilo era o nosso tempo sagrado.
Meu pai era mais que pai. Era meu amigo. Meu consolo. Meu abrigo quando o mundo parecia grande demais. Nem sempre concordava comigo — e isso também era amor. Ele me ensinou a humildade, a escolher o ser em vez do ter, a não ser indiferente à dor alheia. Ele ficava ao lado de quem precisava, mesmo que isso lhe custasse.
Era alegre. Gostava de festa, de música, de gente reunida. Sua risada era larga. Sua presença, quente. Ele tinha essa capacidade de transformar o simples em especial.
E foi um avô extraordinário para Bruno e Gabriel — seus amores maiores. Com eles, voltava a ser menino. Cuidava, protegia, brincava, admirava cada gesto. Seus olhos brilhavam ao falar dos netos. Era um avô presente, dedicado, amoroso. Eles eram seu orgulho renovado, sua continuação mais doce.
Hoje, quando acordo e sinto essa ausência, lembro-me novamente da música:
“Eu acordei com medo… mas não chorei nem reclamei abrigo.”
Porque, no meio do escuro, eu sinto um abraço forte. Já não é medo. É uma coisa dele que ficou em mim — e que não tem fim.
De repente, a gente percebe que o caminho é escuro e frio. Mas também é bonito, porque é iluminado pela beleza do que aconteceu minutos — ou anos — atrás. Meu pai ilumina minha memória. Ilumina minha história. Ilumina quem eu sou.
Conforta-me lembrar as palavras de Jesus Cristo: “Não se turbe o vosso coração.”
Eu tento. Porque acredito que aquele menino órfão de cinco anos foi finalmente acolhido pelo Pai eterno em um abraço sem ausência.
Perder meu pai é a maior dor que já senti. Mas ter sido seu filho é a maior honra da minha vida.
Ele segue vivo em mim. No que faço. No que ensino aos meus filhos. No modo como abraço. No jeito como tento ser melhor.
E, quando o medo aparece, eu fecho os olhos.
E sinto seu abraço.
E já não é medo.
É amor que não tem fim.













