Chegamos a Fortaleza no cair da tarde, quando o sol já não fere os olhos e a cidade começa a respirar mais devagar. A capital cearense nos recebeu com uma brisa suave, dessas que parecem carinho — como se o vento dissesse, em silêncio: sejam bem-vindos. Gabriel e Bruno estavam eufóricos. Os olhos brilhavam diante da beleza da orla, do mar que se estendia infinito, da vida pulsando na Beira-Mar.
Fomos jantar. Ao redor, um espetáculo cotidiano e, ao mesmo tempo, extraordinário: pessoas andando de patins, bicicletas cruzando o calçadão, risadas soltas, música, encontros, alegria espalhada no ar. A vida acontecendo em sua forma mais crua e mais bela.
Foi então que, no meio daquela multidão festiva, a realidade se apresentou sem pedir licença. Primeiro, um casal de irmãos em situação de rua. Receberam de presente, de vizinhos da mesa ao lado, as sobras de um belíssimo peixe. Não houve constrangimento, apenas gratidão.
E, quase despercebido entre tantos corpos em movimento, vi pela primeira vez um garoto vendendo balas. Não comprei nada. Apenas o percebi. Seu olhar atravessou a multidão por um instante e, logo depois, ele se perdeu entre as pessoas, como quem existe e, ao mesmo tempo, parece invisível.
Outros vendedores ambulantes passaram. Cada um carregando sua própria luta, sua história não contada. A vida insistia. A vida pulsava. A vida resistia.
Quando nossa comida chegou, ele reapareceu. O garoto da bala. Aproximou-se com delicadeza e me pediu que comprasse uma. Começamos a conversar. Seu nome: Manoel. Deus conosco. Ou melhor, Emanuel.
Minha esposa, com a simplicidade de quem enxerga além das aparências, o convidou para comer conosco. “Sem almoço”, ele disse. E aceitou. Naquele instante, fui tomado por uma emoção inteira, sem restos. Para mim, não havia dúvida: Jesus Cristo estava à mesa comigo. Partilhando o pão, presente, vivo.
Manoel era alegre, inteligente, batalhador. Contou que tem um irmão mais novo, autista, e que vende balas para ajudar a pagar seu tratamento. E ali, diante daquele menino frágil e forte ao mesmo tempo, tive ainda mais certeza da presença de Deus.
Eu atravessava dias de profunda preocupação e ansiedade com a saúde de meu pai. O coração angustiado, ferido, cansado. E, ainda assim, Deus não me abandonou. Mesmo que eu mereça tão pouco, Ele veio ao meu encontro. Veio se fazer presente na figura de uma criança pobre, lutando pela própria vida e pela vida de sua família.
Lembrei-me das palavras de São Paulo Apóstolo: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). Naquele momento, a força não estava em mim, mas na graça que se manifestava diante dos meus olhos. Recordei também o Evangelho de Lucas, quando Jesus nos ensina que Ele se revela no pequeno, no faminto, no invisível: “Tudo o que fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Lc 25,40).
Bruno e Gabriel se encantaram. Conversaram, brincaram, riram com Manoel. A infância encontrou a infância. Sem muros, sem rótulos, sem diferenças — apenas humanidade.
O vento continuava soprando. E, quando voltamos para o hotel, voltamos diferentes. Tomados por uma felicidade serena, por uma paz que não se explica, apenas se sente.
O que me resta é agradecer. Agradecer a Deus por Sua graça, Seu amor e Sua bondade comigo. Porque, naquela noite em Fortaleza, Deus caminhou pela orla, vendeu balas, sentou-se à mesa e me lembrou que jamais estou sozinho.















