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Ionesco e o Brasil: Você virou rinoceronte?

Colunista | Orlando Macedo | Artigo - 01/03/2020 - 10:04 | Atualizado: 08/03/2020 - 23:22


  Por Orlando Macedo
Eugène Ionesco foi um escritor Romeno, de uma linha chamada teatro do absurdo, termo que ele mesmo rejeitava, preferindo insólito. Hoje seria o que se chama de ficção fantástica.

Lembrei de Ionesco ao estar correndo os olhos pelos infindáveis posts políticos de minhas redes sociais. Uma das obras mais marcantes de Ionesco se chama O Rinoceronte e fico refletindo como uma obra do início do século passado é uma metáfora perfeita para os dias atuais.

Acho que tudo teve sua origem no twitter. Ou, contemporaneamente, na pictografia do msn e do Orkut. Não importa, daqui a alguns anos, quando o hoje for passado, todos serão inseridos na mesma época e no mesmo contexto. Enfim, foi assim que tudo começou. O mundo em 140 caracteres e umas carinhas.

Sim, sim, é divertido e engraçado. Quando estamos tratando apenas redes sociais. Fuxicos. Conversas sobre gatos. Histórias sérias e engraçadas. Mas não notícias. Entenda, ali não é a hora e o lugar para notícias. São 140 caracteres, pelo amor de Deus! Não dá pra falar nada sério em 140 caracteres.

Mas acabamos falando. Sim, mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa. Também cometo esse erro. Ou cometia, tenho evitado ao máximo. E na praticidade da leitura rápida, a informação voa, se estende e contorce, e em algum momento se perde da verdade e sequer percebemos. 


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Se fosse só isso, tudo bem. Fácil de consertar. Mas não é só isso. E é aí que entram os Rinocerontes. Em sua peça, Ionesco retrata uma pequena cidade onde os personagens usam a lógica para conclusões absurdas. Um dos exemplos é quando partindo da premissa que um gato tem 4 patas chegam a conclusão de que tudo que tem 4 patas é um gato. Quando de repente entra na cidade um Rinoceronte. E, usando falsas premissas, cada um começa a justificar o absurdo de um rinoceronte na cidade. E, aos poucos, todos vão se transformando em Rinocerontes, porque a falsa lógica, o comodismo de 140 cracteres, o comodismo da verdade enlatada assim o demandam. Ninguém quer procurar a verdade. Ninguém quer ir contra a maré. Começamos a discutir o número de chifres de rinocerontes (sim, hoje também temos dois tipos de rinocerontes) e esquecemos o absurdo de termos cada vez mais rinocerontes entre nós.

Vou terminar com a última cena da peça. Essa cena ficou gravada em mim pois meu pai, como diretor de teatro, encenou esta peça nos idos dos anos 70. Quem a interpretava, ao menos em minha memória, era o Paulinho, com uma carabina, sobre a cama. Me lembro bem até hoje do texto (que abaixo reproduzirei no francês original, perdoem se a memória trai a fidelidade):

Pobre daquele que quer manter sua personalidade! Mas, tanto faz! Eu me defenderei contra todo mundo! Minha espingarda! Contra todos me defenderei! Eu sou o último homem, e resistirei até o fim! Não me renderei!


Malheur à celui qui veut conserver son originalité ! (Il a un brusque sursaut.) Eh bien tant pis ! Je me défendrai contre tout le monde ! Ma carabine, ma carabine ! (Il se retourne face au mur du fond où sont fixées les têtes des rhinocéros, tout en criant:) Contre tout le monde, je me défendrai ! Je suis le dernier homme, je le resterai jusqu’au bout ! Je ne capitule pas!


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